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BIM no Brasil: o que empresas brasileiras podem aprender com Reino Unido e Singapura?
De ferramenta de modelagem a estratégia de gestão: como Reino Unido e Singapura transformaram o BIM em parte da tomada de decisão na construção civil.
1. Introdução - BIM não é apenas um modelo 3D
Durante muito tempo, falar em BIM significava falar principalmente sobre modelagem tridimensional.
Mas mercados como Reino Unido e Singapura mostram uma visão mais ampla: BIM está relacionado à gestão da informação, integração entre disciplinas, colaboração, planejamento e tomada de decisão ao longo do ciclo de vida do empreendimento.
No Reino Unido, o governo estabeleceu uma estratégia nacional para acelerar a adoção do BIM e, em 2016, tornou o BIM Level 2 obrigatório em projetos de construção financiados centralmente pelo governo.
Em Singapura, a Building and Construction Authority (BCA) vem tratando BIM como parte de uma transformação mais ampla do ambiente construído, conectando tecnologia, aprovação regulatória, produtividade e entrega digital integrada.
A pergunta, então, não é se o Brasil precisa usar BIM.
A pergunta é:
como transformar o BIM em uma ferramenta efetiva de gestão?
2. Reino Unido: quando o BIM deixou de ser apenas tecnologia
Londres se tornou um dos grandes centros mundiais de discussão sobre BIM.
Um dos nomes importantes dessa trajetória é Mark Bew, presidente do BIM Task Group britânico, que participou da estruturação da estratégia de BIM do governo britânico. Em 2016, o governo avançou com a exigência do BIM Level 2 para projetos governamentais apropriados.
O ponto mais interessante não foi simplesmente obrigar empresas a modelar em 3D.
Foi criar processos, requisitos e padrões para organizar a informação do projeto.
A estratégia britânica passou a tratar BIM como uma combinação de processos, padrões e tecnologia, criando uma base confiável de informação para decisões durante o ciclo de vida do ativo.
O aprendizado para o Brasil:
BIM precisa começar pela gestão da informação, e não pelo software.
Uma empresa pode ter excelentes profissionais de Revit, Navisworks ou outras plataformas e ainda assim ter um processo BIM fraco.
Porque o verdadeiro ganho aparece quando:
- arquitetura, estrutura e instalações conversam;
- os requisitos de informação são definidos;
- responsabilidades são claras;
- os dados são organizados;
- as interferências são identificadas antes da obra;
- as informações continuam úteis durante a execução e operação.
3. Um exemplo britânico: Alder Hey Children's Hospital
Um caso interessante está em Liverpool, com o novo Alder Hey Children's Hospital.
O empreendimento, de aproximadamente £237 milhões e 270 leitos, utilizou BIM para aumentar a integração entre projeto, engenharia e fabricação.
Segundo a estratégia de construção do governo britânico, o BIM contribuiu para integrar os elementos do edifício e facilitar a coordenação entre projetistas, engenheiros estruturais e processos de fabricação. O projeto também utilizou princípios de Design for Manufacture and Assembly (DfMA).
Isso traz uma provocação importante:
Quanto mais cedo a informação é integrada, maior é a capacidade de tomar decisões antes que elas se transformem em problemas no canteiro.
É justamente aí que BIM deixa de ser representação gráfica e passa a ser ferramenta de prevenção.
4. Singapura: BIM conectado ao processo de aprovação
Se o Reino Unido é uma referência importante em padronização e gestão da informação, Singapura oferece outro aprendizado: conectar o modelo digital ao processo real de desenvolvimento do empreendimento.
A Building and Construction Authority BCA desenvolveu políticas e iniciativas para ampliar a adoção do BIM.
Desde 2015, projetos maiores passaram a utilizar BIM na submissão de projetos às autoridades regulatórias. Em 2018, a BCA destacava que projetos com mais de 5.000 m² deveriam utilizar BIM para submissões regulatórias.
Hoje, a evolução vai além.
O CORENET X permite que profissionais qualificados submetam um modelo BIM coordenado para processos de aprovação regulatória, reduzindo a necessidade de enviar informações separadamente para diferentes órgãos.
Isso muda completamente a lógica.
Em vez de:
projetar → gerar desenhos → separar documentos → enviar informações → corrigir inconsistências
a lógica passa a ser:
modelar → coordenar → validar → compartilhar informação → aprovar.
5. BIM + IDD: a evolução de Singapura
Outro conceito importante de Singapura é o Integrated Digital Delivery (IDD).
A ideia é utilizar BIM como base para conectar diferentes participantes do empreendimento por meio da informação digital.
A BCA descreve o IDD como uma evolução que conecta as partes envolvidas e permite que informações do edifício sejam aproveitadas inclusive para manutenção e futuras intervenções.
Ou seja:
BIM não termina quando o projeto executivo termina.
Ele pode acompanhar:
Projeto → orçamento → planejamento → execução → operação.
E essa talvez seja uma das maiores oportunidades para empresas brasileiras.
6. Reino Unido x Singapura: duas estratégias, um mesmo princípio
Aqui eu colocaria um quadro comparativo no blog:
| Reino Unido | Singapura |
|---|---|
| Forte atuação governamental | Forte atuação governamental |
| Padronização da informação | Integração digital |
| UK BIM Framework | BIM + IDD |
| ISO 19650 | CORENET X |
| Gestão da informação | Aprovação e colaboração |
| Foco no ciclo de vida | Foco na integração do ecossistema |
| BIM como processo | BIM como infraestrutura digital |
Apesar das diferenças, existe um ponto em comum:
Nenhum dos dois trata BIM simplesmente como um software de modelagem.
Esse é o principal aprendizado.
7. E o Brasil?
O Brasil avançou bastante na adoção do BIM, inclusive com iniciativas governamentais e regulamentações voltadas à disseminação da metodologia.
Mas ainda existe um desafio importante:
transformar adoção tecnológica em maturidade de gestão.
É possível encontrar empresas que possuem modelos BIM, mas continuam enfrentando:
- incompatibilidades;
- retrabalho;
- informações descentralizadas;
- alterações de projeto durante a execução;
- dificuldade de levantamento quantitativo;
- falta de integração entre projeto e orçamento;
- dificuldade de conectar planejamento e execução.
Ou seja:
ter BIM não significa necessariamente trabalhar de forma integrada.
8. O que as empresas brasileiras podem aprender?
Aqui entraria o coração do artigo.
1. Começar pelo processo, não pelo software
Antes de escolher ferramenta, a empresa precisa definir:
O que queremos melhorar com BIM?
Compatibilização?
Orçamento?
Planejamento?
Execução?
Operação?
Sem essa definição, o BIM corre o risco de virar apenas uma entrega gráfica sofisticada.
2. Criar padrões de informação
O Reino Unido mostra a importância de estabelecer padrões.
Uma empresa brasileira pode criar:
- requisitos de informação;
- padrões de nomenclatura;
- níveis de informação;
- responsabilidades;
- fluxos de aprovação;
- critérios de modelagem;
- padrões de entrega.
Isso reduz dependência de decisões individuais.
3. Integrar BIM ao orçamento
Aqui existe uma oportunidade enorme.
O modelo BIM pode alimentar quantitativos e apoiar processos de orçamento.
Mas o verdadeiro ganho acontece quando:
modelo → quantitativo → orçamento → planejamento → acompanhamento
passam a conversar.
É aí que BIM começa a gerar impacto financeiro.
4. Usar BIM antes da obra começar
A grande vantagem não é apenas enxergar o empreendimento em 3D.
É enxergar problemas antes de executá-los.
Uma incompatibilidade detectada no modelo pode ser resolvida em ambiente digital.
A mesma incompatibilidade descoberta durante a execução pode gerar:
retrabalho + atraso + desperdício + custo adicional.
5. Conectar BIM ao planejamento
Esse é um ponto que merece destaque para a Aval.
O BIM pode representar o que será construído.
O planejamento define quando será construído.
O orçamento mostra quanto deverá custar.
O acompanhamento mostra o que realmente está acontecendo.
A maturidade está em conectar essas quatro dimensões.
9. A pergunta que o mercado brasileiro deveria fazer
Em vez de perguntar:
“Minha empresa já trabalha com BIM?”
a pergunta deveria ser:
“Quanto das decisões da minha obra hoje são apoiadas pelas informações produzidas pelo BIM?”
Essa mudança de pergunta é fundamental.
Porque o objetivo não deveria ser simplesmente produzir um modelo digital.
O objetivo é produzir informação confiável para tomar decisões melhores.
10. O futuro: BIM como camada de inteligência
O caminho apontado por Reino Unido e Singapura mostra uma tendência clara.
O BIM tende a deixar de ser uma etapa isolada do projeto para se tornar uma infraestrutura de informação do empreendimento.
E isso abre espaço para integração com:
- orçamento;
- planejamento;
- ERP;
- gestão de custos;
- acompanhamento físico;
- BI;
- inteligência artificial;
- digital twins;
- operação e manutenção.
No Reino Unido, o próprio governo já trata BIM dentro de uma perspectiva de gestão da informação e ciclo de vida dos ativos.
Em Singapura, a evolução para plataformas como o CORENET X mostra o movimento de integração entre modelo digital e processos regulatórios.
11. Conclusão - o verdadeiro aprendizado
O Reino Unido ensina que BIM precisa de padrão, processo e governança.
Singapura mostra que BIM pode ser conectado ao ecossistema inteiro da construção, incluindo aprovação, colaboração e operação.